05/06/2026

Entre vinis e crises de ansiedade

 Quando ganhei meu toca-discos e meus primeiros vinis no meu aniversário ano passado, nunca imaginei que isso de alguma forma, seria um aliado da minha saúde mental. Parece contraditório falar disso tratando-se de algo que não é muito barato e que envolve consumismo, mas calma: vou explicar o MEU ponto de vista e o que ando aprendendo com essa experiência.

Minha vontade de colecionar discos surgiu em 2007, por conta de um amigo mais velho que não tinha computador e só ouvia música assim! O som era diferente, a experiência também. Deixei a ideia de lado porque estava desempregada e depois mesmo empregada, não tinha condições de custear o hobby. Além disso, eu morava na casa da minha mãe o que me limitava um pouco. Eu tinha e ainda tenho  algumas poucas mídias físicas que acumulei na adolescência, mas nada em quantidade exorbitante.

Com a facilidade de consumir música baixando MP3 e mais tarde, com as plataformas digitais, acabei deixando esse desejo de lado. Era muito fácil vivenciar a experiência de ouvir artistas populares, de nicho e até aqueles mais desconhecidos, os mais "lado B"! A comodidade me levou por esse caminho durante muito tempo, mas então, como consumir uma mídia analógica e com preço pouco acessível pode ajudar? Bem, em muita coisa!

Sublimação: A psicanálise vê muitas coleções como sublimações saudáveis. A energia de impulsos ou obsessões é redirecionada para uma atividade socialmente aceita e construtiva, estimulando a criatividade. — Fonte

Tenho uma lista pequena de futuras compras na Amazon, mas não me restrinjo a ela, procuro em feiras de discos e em lojas virtuais diversas, sem um artista definitivo em mente. Isso não me causa ansiedade, muito pelo contrário, me faz trabalhar o aqui e agora, focando no que está disponível no momento. Mesmo quando decidi comprar os discos favoritos de uma banda específica, tive que lidar com a volatilidade de preço, qualidade e estado do produto. Não era algo imediato, como comprar uma roupa por impulso ou ter uma peça específica me esperando em uma loja virtual! Além de esperar para encontrar, preciso esperar para receber.

Fora que mesmo quando encontro o que quero, me deparo com a minha realidade financeira: cabe no meu bolso agora ou devo esperar, correndo o risco de perder o produto (já que muitas vezes são discos de segunda mão)? Se perco, tenho que recomeçar pacientemente a busca, avaliando as condições do vinil e o meu orçamento.

Isso também me força a abrir mão do perfeccionismo, ao contrário da Amazon, que muitas vezes vende produtos importados, novos e lacrados, as lojas de discos físicos focam na segunda mão. A capa muitas vezes não vem com encarte e nem sempre estará impecável, ela vai carregar as marcas do tempo. Quem tem TAG (Transtorno de Ansiedade Generalizada) costuma ser perfeccionista, pois isso nos foi muito cobrado na infância e na adolescência. Com o vinil, a gente aprende a desapegar da perfeição estética externa e foca apenas no disco que está dentro da embalagem.

Ouvir um disco é um exercício de paciência, diferente de um aparelho de MP3 ou das plataformas de streaming, onde você pula faixas que não agradam com um clique, a vitrola exige um certo ritual e habilidade. Sem contar que você precisa levantar e virar o lado do vinil para ouvir o restante das músicas. Isso requer presença, paciência e me deixa consideravelmente menos ansiosa.

É sobre reconhecer suas limitações financeiras e fazer escolhas conscientes para manter o hobby. Você não tem acesso fácil a tudo o que quer, apenas àquilo que está disponível NO MOMENTO! Você acaba ficando mais seletiva com as suas coisas (ainda mais se já for alguém seletiva). Você não gasta por gastar, guarda para ir a um local onde seu dinheiro realmente valha a pena. Se quer comprar um vinil no mês que vem, você deixa de lado o lançamento que sua loja de roupas favorita anunciou. Afinal, você pensou na possibilidade de comprar o álbum daquele artista do seu coração e adivinha? Além de super disputado, ele custa o preço da bendita peça de roupa.

Para completar, o vinil não te deixa fazer múltiplas coisas ao mesmo tempo, você senta, ouve o lado do disco e em contrapartida, vai ler alguma coisa  nem que seja um texto pequeno, ou como eu faço, vai escrever! Voltar ao analógico não é apenas um modismo, é uma necessidade de viver no presente e pelo presente! É um respiro para não consumir tudo de forma rápida e se desintoxicar desse vício em telas, que em maior ou menor grau, todos nós estamos vivenciando.

E você, qual é o seu hobby analógico que te faz vivenciar o presente?

Imagem Pinterest

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